O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou uma nota, no início desta semana, informando que “exames feitos em amostras do pescado do litoral nordestino atingido pelo vazamento de óleo mostram que o produto está próprio para o consumo humano”. A afirmação é parcialmente verdadeira. “Não é possível generalizar. Deve ser considerada somente a pesca industrial, oceânica. Nada garante a pesca artesanal”, afirmou o professor Renato Carreira, do Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), que liderou os próprios testes encomendados pelo Mapa.
Três principais fatos vão de encontro ao comunicado do Mapa. Não houve testes com todos os tipos de peixes consumidos no Nordeste; também não foram coletados pescados em todos os estados atingidos; e apenas foram analisados peixes de empresas registradas no Serviço de Inspeção Federal (SIF). Isso exclui os pescados artesanais, da população ribeirinha, que compõem a maior parte do que é consumido na beira das praias nordestinas.
Segundo o professor, há entre os peixes analisados dourado, garoupa e outros tipos de “migradores, pescados em alto mar”. Foi examinada a presença dos HPAs, os hidrocarbonetos policísticos aromáticos, compostos extremamente tóxicos presentes no petróleo “e que são muito persistentes”, ou seja, não são digeridos pelos organismos humanos. Significa que, se os peixes entrarem em contato com esses produtos, as toxinas passarão necessariamente para quem os consumir.
“Pegamos a parte comestível e fazemos uma análise química. Tem o resultado de várias moléculas e, dependendo da concentração e do nível de HPA encontrado, tem-se a recomendação”, destacou Renato Carreira.
“Os resultados revelam níveis baixos dos HPAs detectados em peixes e lagostas, não representando riscos para o consumo humano”, afirmou o Mapa na nota divulgada. Ao dizer isso, o ministério garantiu que o teor de composto tóxico constatado está dentro do limite seguro para ingestão.
O professor fez questão de ressaltar que a recomendação não foi feita pela PUC, muito menos por sua equipe. “Isso é uma questão legal, balizada pelos órgãos competentes. Nós só fazemos a análise e entregamos o laudo. A recomendação usa critérios a partir do nível [de HPA] encontrado em pescados de outras partes do mundo, como na União Europeia e nos Estados Unidos”, esclareceu o pesquisador.
